Perséfone e Hades: morte e renascimento. - Juliana Infurna

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Perséfone e Hades: morte e renascimento.

Perséfone e Hades: morte e renascimento.

A mitologia e seus arquétipos são uma incrível fonte de sabedoria, neles encontramos lampejos de luz sobre a consciência individual e coletiva dos homens em busca de suas almas no decorrer da história da humanidade. O mito de Perséfone, a deusa avernal, é sem dúvida o qual mais me relaciono (inevitavelmente).

Desde 2008 o senhor Hades (representado por Plutão) está passeando por seus domicílios (casa 8) no meu mapa. Quando penso que ainda faltam 5 anos para ele sair de lá, me canso. Quando penso na grande conjunção de 2020 então, eu nem sei rs. Não é um trânsito fácil. Hades destrói, elimina, desestrutura, abala, rouba… literalmente sai dando “porrada” pode onde passa. Ele destrói ou nos obriga a destruir, não há como escapar.

O objetivo por trás é maravilhoso, é matar o ego, é depurar, iluminar… evoluir. Um potencial gigantesco de transformação.

As máscaras e as estruturas caem, uma a uma, através das mais sinistras e inimagináveis projeções. Na casa 8 (no seu próprio domínio), ele expurga todos os seus traumas mais profundos e dolorosos, dos mais obscuros, primários e sombrios e faz você revivê-los, um a um, no intuito de curá-los. As feridas originais (até então esquecidas) são expostas e a sensação é de morte a cada mergulho. Se não morremos, renascemos… literalmente das cinzas.

A dor vem sendo instrumento de cura neste mundo pois ao entrar em contato com o desconforto do sofrimento, o homem é convidado a olhar para dentro e promover grandes saltos de consciência em busca de sua autorregeneração.

No mito de Perséfone, encontramos a perfeita ilustração deste processo de transformação pela morte. Morte não no sentido físico, porém como representação do final e início dos ciclos inerentes a vida. “A única constante é a mudança”. Mudar significa morrer: morrer para o passado, para antigos padrões que não mais se sustentam e se abrir para o novo, renascer.

Ao negar a morte, negamos a própria vida. Pois não há vida sem morte e vice e versa. Tudo começa onde termina assim como tudo termina onde se começa.


O mito:

Art by June Leeloo.

O mito gira em torno da trama do rapto de Perséfone (até então chamada por Kore, como era conhecida pelos romanos). Perséfone é raptada por Hades (deus do mundo subterrâneo) enquanto a jovem e inocente menina se afasta para colher uma flor de Narciso perto de um precipício. Neste momento, a terra se abre e Perséfone é levada aos gritos para o mundo dos mortos e separada brutalmente de sua mãe Deméter.
Deméter, tomada por uma profunda dor, busca incansavelmente sua filha e quando descobre, com ajuda de Hécate e Hélio, que sua filha havia sido raptada por Hades com ajuda de Zeus para torná-la então esposa de Hades, Deméter lança uma tremenda escuridão sobre a terra, que passa por quase 1 ano de infertilidade deixando os homens passando fome e os deuses sem suas oferendas e sacrifícios.
Finalmente Zeus envia Hermes ao Hades para convencer o senhor do submundo que devolva sua esposa a sua mãe. Hades consente, porém, antes de deixá-la partir, oferece alguns gomos de romã a jovem, que as come. Depois de comer a fruta com o seu marido, Perséfone parte com Hermes ao encontro de Deméter, que ao perceber que sua filha havia comido o fruto enquanto ainda estava no submundo, estaria ela eternamente condenada a viver no Hades, com seu esposo, por pelo menos um terço do ano.
Todos os anos quando Perséfone está com sua mãe, tudo volta a brotar e Deméter cobre a terra com frutos e flores. Quando ela parte, tudo seca e morre novamente.
Kore torna-se Perséfone, a rainha do submundo.

O traumático rapto de Perséfone ao mundo tenebroso de Hades é representado pelos subsequentes raptos (perdas) que passamos ao longo da vida. Hades representa o nosso inconsciente, as águas profundas e o abismo de Escorpião. Quando perdemos algo que temos grande identificação, sentimos que parte de nosso próprio Ser é arrancado de nós e somos lançados ao vazio emocional. Trata-se da morte de aspectos do nosso ego rumo a uma maior conexão com o nosso verdadeiro eu (essência).

Ao literalmente descer às trevas, sendo obrigada a se relacionar com os aspectos sombrios do seu inconsciente, Perséfone passa por um processo de individuação. No mundo avernal, ela encontra seu verdadeiro eu. Torna-se rainha do submundo, senhora dos infernos, auxiliando e ajudando outras almas sofredoras em suas passagens pelo Hades.

Art by June Leeloo.

O agente de transformação desta poderosa deusa vem do submundo, dos cantos abissais e sombrios da alma. Hades permite que Perséfone encontre sua verdadeira independência, governando ao seu lado, seu animus, o mundo dos mortos. Perséfone não era mais a mesma quando escolhe comer a romã, quebrando então a regra do jejum, uma das leis do Hades. Perséfone não era mais Kore, a jovem filha inocente a ser protegida e “infantilizada” por Deméter. Agora ela era a deusa do submundo, sexualizada e tocada pela mais profunda escuridão.

Em sua eterna passagem pelo céu e o inferno, Perséfone adquire sabedoria e o caminho para sua cura. As descidas, cada vez menos traumáticas, a tornam mais forte e consciente. Fadada a viver na luz e na escuridão, aprende a usar seus encontros psíquicos a favor da cura e de sua própria união.

Este mito representa nossas descidas cíclicas ao inferno, nossas mortes psíquicas, nossas transformações, regenerações e renascimentos. Representa os ciclos, o movimento pendular da vida e consequentemente do nosso psiquismo, que dança entre a luz e a escuridão em busca do equilíbrio, da união com nossa verdadeira essência.

Perséfone jamais poderia ajudar outras almas sofredoras em suas descidas ao Hades se não tivesse ela mesma passado por tal experiência. A sombra é e sempre será estrada para a criatividade. Aí reside a verdadeira Alquimia: a capacidade de transformar a escuridão em luz, a favor da Criação, a favor da vida.

Durante a descida, só vemos escuridão. Podemos ser absorvidos pela dor a ponto de sermos tomados pela total desesperança e perda de fé, contudo, nos ancorarmos na transitoriedade dos ciclos (nossa salvação e condenação) torna-se importante no processo. Aceitar a dor ao invés de resistir a ela, compreender o que ela está a nos dizer. Talvez seja necessário pedir ajuda para compreender emocionalmente o que se passa, se sim, peça. Sem hesitar.

A maior ilusão deste mundo é a separação. Todos passamos por momentos Perséfone e descemos ao Hades. Ao ajudar outras almas, Perséfone exercita a compaixão e a empatia em busca de união, que são os antídotos para a nossa desconexão individual e coletiva. A nossa sobrevivência enquanto seres humanos depende inclusive da desenvoltura de tais qualidades dentro de nós, pois elas unem e não mais separam: a dor do outro é minha, a minha dor é de todos.

Cada dor traz consigo potenciais de transformação não só para você, mas para todo o mundo.
Que assim seja… hoje e por todo o sempre.

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