Dissecando o homem rogeriano – Parte II - Juliana Infurna

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Dissecando o homem rogeriano – Parte II

Dissecando o homem rogeriano – Parte II

Daremos seguimento neste Artigo a visão sobre o ser humano de acordo com Carl Rogers, figura importante na Psicologia Humanista. Esta é parte II do “dissecar” do homem rogeriano. Caso você não tenha lido a parte I, sugiro que o faça antes de continuar a leitura deste texto. Para acessá-la, clique aqui.

É importante entendermos que esta visão de ser humano (ou ser Pessoa) de Rogers, é uma visão de mundo.

 

Ser pessoa e aceitar-se, é ser congruente

Congruência é o termo que Carl Rogers encontra para indicar a correspondência mais adequada entre a consciência e a experiência. Sendo assim, ser congruente (coerente), é ser a sua própria experiência: a conexão entre o ser real (o que se é) e o ser existencial (o que se experencia).

Ser congruente é ser autêntico, é aceitar-se e aceitar a própria experiência, é negar as máscaras e negar os personagens. A recusa da interpretação de um papel. Carl Rogers então traz luz sobre o dilema que todos nós enfrentamos em um determinado momento de nossas vidas: Ser ou não ser autêntico… eis a questão. (Para acessar esse Artigo, clique aqui).
A autenticidade manifestada na realidade, a conexão entre o que se é e o que se vive.

Podemos deduzir também que a falta de congruência entre os indivíduos também decorre desta falta de noção do que se é (o ser real), contudo, como vimos no Artigo anterior, a experiência é guia mestra. Sendo assim, ser congruente é aproximar o ser real (experiência vivida e consequentemente sentida) do ser ideal (imagem do eu). É alinhar a experiência àquilo que se sente, como organismo.

O processo de autoconhecimento ou terapêutico ajuda o Ser a se aproximar daquilo que ele gostaria de ser. O que definitivamente não é um processo fácil tendo em vista que a maioria de nós associa “ser quem se é” a algo negativo e ao desamor, pois em nossa insaciável sede por amor, conexão e aceitação – negados – terminamos por esconder nossa verdadeira face para nos adaptar àquilo que nos condicionaram.

A velha história do castigo e recompensa. Crianças sedentas de amor que se condicionam para obter migalhas deste então sentimento que parece confortar, amparar e sustentar o coração dos homens (que por mais que tentemos negar, ainda temos um coração humano pulsando dentro de nossos peitos). Seguiremos neste mecanismo, conscientes dele ou não, na vida adulta. Individual e coletivamente, em todas as nossas relações.

Independente dos infinitos subterfúgios, por mais criativos que sejam, que inventemos, para justificar nossas atitudes para conosco e para com os outros: será a experiência vivida e sentida (guia mestra) o termômetro que definirá o quanto ainda estamos envolvidos neste emaranhado inconsciente de ser fachada para obter migalhas de amor.

Você pode contar mil histórias para si mesmo, convencer-se delas, acreditar como se fossem reais tal como a sua própria existência, porém, se no final do dia, você ainda precisa mentir para si mesmo ou para os outros, esconder-se nas sombras e na escuridão, negando aspectos de si mesmo, alimentando inverdades, com medo de ser aceito pelos outros: você ainda está preso, inconscientemente, na dinâmica mencionada acima. O quanto antes, você se apossar da humildade para aceitar tal condição, mais rápida será a sua redenção.

Afinal, tudo caminha para a luz. Assim como o Sol, a Lua e a Verdade não ficam escondidos por muito tempo (Buda), a sua essência (sua Pessoa) aflorará inevitavelmente, a tendência atualizante, como diz Carol Rogers. De acordo com ele, há um final (ou melhor… processo 😊) feliz nesta busca (neste caminhar para a luz), que veremos adiante.

 

A congruência e sua Alquimia

Rogers enxerga um valor inestimável na congruência (coerência), não só pela libertação pessoal inerente a mesma, mas sobretudo pelo potencial de transformação que ela traz nas relações interpessoais e é justamente aqui, que no ponto de vista, reside o Ouro da obra de Carl Rogers.

“Nunca achei que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pessoas tentar manter uma atitude de fachada, agir de uma certa maneira à superfície quando estou a passar pela experiência de algo completamente diferente” Rogers 1977.

Em sua jornada, Rogers observa que a transformação do outro era facilitada quando as relações interpessoais eram autênticas e sem máscaras e isso inclui a relação psicoterapêutica. Isso me recorda a frase de Jung: “Conheça todas as teorias e todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Rogers traz luz sobre o potencial transformador do “humanizar-se”, inclusive do terapeuta, que muitas vezes também veste sua máscara e torna-se fachada para conseguir ajudar o outro. O terapeuta, como Pessoa, em sua luta pessoal ao buscar a congruência de sua experiência, é ao mesmo tempo, impelido a vestir uma máscara para ajudar o outro pois subentende-se que o outro não está pronto para enxergá-lo como a Pessoa que é, impossibilitando a relação de confiança, consequentemente a ajuda.

Rogers então, ao contrário de outras linhas da psicologia, encoraja todos a serem Pessoa, inclusive o terapeuta, pois ao sê-lo, aumentaria inclusive o seu potencial de ajuda ao outro. Ele propõe uma relação terapêutica palpada na igualdade (humildade) e não paternalista, que envolveria superioridade (fazendo uma alusão a psicanálise freudiana).

Numa linguagem alquímica, Rogers então descobre que tudo se resume a busca pelo Sal e que “O maior dos caminhos da iniciação, e o caminho mais simples, consiste em tornar-se o menor dentre os homens. É no preço desta humildade que se volta a cristalizar a Luz superior, que vai permitir irradiar o esplendor sobre todos os seus irmãos na humanidade” Nicolas Flamel.

Ser Pessoa, é ser livre, de acordo com Rogers. Ao me aceitar e aceitar minha experiência (ao me permitir senti-la e deliberar a partir daí), aceito o outro incondicionalmente e sou congruente. Sendo congruente, facilito que o outro também o seja. Consequentemente, as relações se tornam reais. De escravos, nos tornamos livres. É possível sentir claramente a influência cristã na obra de Rogers, uma “fé anárquica” no ser humano, em sua natureza… a aceitação da zona de caos que se harmonizaria se todos se tornassem “Pessoa” em sua real humanidade.

A temida liberdade de ser quem somos. O maior medo dos seres humanos.
“O caminho para a liberdade e para a autonomia, para a independência, é o caminho para a congruência.” “Ser congruente é estar permanentemente comprometido na descoberta de que ser plenamente ele mesmo, em toda a sua fluidez, não é sinônimo de ser mau ou descontrolado. Pelo contrário. Quer dizer que caminha continuamente para ser, na consciência e na expressão, aquilo que é conforme com o conjunto das reações organísmicas, ou melhor: ser quem realmente se é”.

Aqui vemos mais uma alusão ao reino humano (água). Ser Pessoa é ser fluído, fluxo, constante processo, é ser quem se é diante das experiências da vida. Incongruência então é estática, prisão e imutabilidade. Ser autêntico é passar da rigidez a fluidez.

A fé de Rogers advém de uma natureza humana, que em suas reações “organísmicas”: é positiva e social, em essência, e que tende à evolução “crescimento”. Uma vida mais plena, de acordo com Rogers, é uma vida mais liberta, que passa de uma visão defensiva para uma visão mais aberta da experiência. Sendo assim, de dar ouvido a este organismo humano que somos e que sabe o que é melhor para nós, através do sentir, pois já somos completos em nós mesmos.

Esta capacidade de autorealizar-se e de auto atualizar-se é natural, traduz-se em vida. Assim como todos os organismos na natureza se adaptam e evoluem, assim é o homem. A dança da vida tende ao positivo, assim como o homem.

Não há final pleno ou feliz, porém Rogers, em sua psicologia humanista, propõe um processo, uma caminhada mais plena e passível de autorrealização, que passa inerente pela busca de sermos quem somos. Apesar de sua natureza cristã, Rogers valida sua teoria na natureza humana, em sua biologia, como um organismo vivo que faz parte e é correspondente de um organismo vivo maior.

Sem dúvida é uma proposta corajosa (coração).

Ao terminar estas linhas sou tomada por uma imensa vontade de tirar dúvidas com este homem brilhante. Me questiono se ao final de sua vida, ao olhar para trás, ele concluiu se foi suficientemente congruente a ponto de sentir-se em paz ao partir. Ou sobre qual era sua visão sobre algumas disfunções genéticas, como a psicopatia primária, que provocariam esta visão essencialmente positiva sobre o ser humano “natural”. Sobre como ele lidava com seu “amor pela verdade” ao tentar equilibrá-lo com a “verdade do amor”, visto que muitas vezes ser verdadeiro implica em processos destrutivos, anti-vida, daquelas almas que ainda não estão maduras para ouvi-las… etc.

Ficam as indagações. Contudo, Carol Rogers é inspiração e conversa com minha alma. Trata-se de um homem claramente comprometido com o seu processo de tornar-se Pessoa e que, consequentemente, ajudou muitos outros seres a se transformarem, ao fazê-lo.

Espero que tenham gostado.
Até a próxima! 😊

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