Dissecando o homem rogeriano - Parte I - Juliana Infurna

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Dissecando o homem rogeriano – Parte I

Dissecando o homem rogeriano – Parte I

Nesta série de Artigos vamos discorrer sobre a psicologia de Carl Rogers, considerado o grande impulsionador da Psicologia Humanista (também conhecida como a 3ª força da Psicologia). Carl Rogers também foi figura ativa na luta pela autonomia da profissão psicoterapêutica, antes exercida exclusivamente por médicos e médicos psiquiatras. Também foi indicado ao prêmio Nobel pela grandeza de sua Obra que no meu ponto de vista, é um colírio diante da percepção da natureza humana nos tempos modernos.

Apesar de meus estudos “oficiais” sobre o psiquismo humano terem se iniciado com a psicanálise freudiana, Carl Rogers chega como uma beatitude diante de tantas teorias e abordagens pessimistas sobre o ser humano, cujo esse então, estaria fadado e estigmatizado por um passado inconsciente (essencialmente negativo) que o define e que o dirige.

A abordagem rogeriana traz luz sobre algo que no fundo eu sei, você sabe e todos sabemos (quando centrados): sobre ser humano. É importante relembrar que humanidade tem como principais significados: bondade, benevolência, compaixão e piedade. Quando nos conectamos uns aos outros por esses princípios, nos tornamos humanos de verdade.

Contudo, há de se entender o pessimismo diante do ser humano de da humanidade. Caminhamos já alguns séculos por tempos incrivelmente difíceis, ambientes inóspitos, aparentemente incapazes de despertar ou de deixar florescer nossa real humanidade.

Vamos aqui compreender um pouco mais sobre o conhecimento que este homem compartilhou durante sua jornada, no intuito de trazer sobre aquilo que já sabemos, mas que talvez tenhamos esquecido. Afinal, o trabalho é sempre relembrar… pois já somos tudo aquilo que precisamos ser 😊

Rogers para mim, é sobre: leis naturais, natureza humana, alquimia (transformação), cristianismo (de tabela: um pouco de anarquismo), acolhimento, humildade, compaixão, cardíaco, empatia, aceitação e sobretudo: autenticidade e liberdade.

Amamos 😊

 

Pequena Biografia:

Aos 12 anos, Carl Rogers vai morar numa fazenda com sua família e entrega-se então a observação da natureza, o que o motivou a estudar agronomia quando mais velho. Porém, num determinado momento, ele muda sua vocação e a direciona à teologia, emancipando-se da casa dos pais para ingressar num dos colégios mais liberais de sua época: o Union Theological Seminary. Durante seus anos lá, Rogers então, através de suas vivências, sente a necessidade de explorar as questões humanas com mais profundidade e a partir dali parte então para seus estudos dentro da Psicologia e Psicopedagogia.

É seguro dizer que ao observar a natureza e ao estudar o macrocosmo e sua relação com o homem, através da teologia, Rogers tenha despertado a paixão pela busca desta mesma natureza dentro do ser humano, afinal, o cerne de sua Obra gira em torno de “Tornar-se pessoa” (ser quem realmente se é), nome de um dos seus principais livros.

 

Síntese do pensamento rogeriano:

Para Rogers, o ser humano parte de um cerne essencialmente positivo, capaz de compreender-se e de solucionar seus próprios problemas. Ser humano é ser processo, sendo assim, um contínuo trabalho de vir a ser (devir), daquilo que já se é. Pode parecer um tanto subjetivo num primeiro momento, mas veremos que é simples.

“A natureza básica do ser humano, quando atua livremente, é construtiva e fidedigna. Trata-se da inevitável conclusão de mais de trinta anos de experiência em psicoterapia. Quando somos capazes de libertar o ser de suas defesas, de modo que ele se abra à ampla variedade das exigências ambientais e sociais, pode-se confiar em que suas reações serão positivas, voltadas para o futuro, construtivas. Não precisamos perguntar quem o socializará, pois uma de suas aspirações mais profundas é de associar-se, de comunicar-se com os outros. Quando é, plenamente, ele próprio, não pode deixar de ser realisticamente socializado”. Carl Rogers 1972.

Sendo assim, o ser humano possui um núcleo positivo (afetivo, empático e considerativo) que já lhe é intrínseco independente da educação e de seu processo de aprendizagem. Ao longo de sua jornada, o homem caminha em direção a este fim, o que Rogers chamará de tendência atualizante. Esta atualização rumo aquilo que já se é entrará em choque com o ambiente externo que o Ser encontrará, que será balizado pela qualidade das relações interpessoais.

Se o outro o valoriza e valida a experiência do Ser, diminui-se a distância entre o ser real (quem se é) e o existencial, sendo assim, é estabelecida uma congruência (coerência), que Rogers aponta como a unidade total da personalidade (autenticidade).
Se o outro não valoriza ou condiciona a experiência do Ser, esse então passa a valorizar-se de forma também condicional. Ocorre uma ruptura entre o ser real e o existencial, bem como aumenta-se a distância entre a consciência que o Ser possui de si mesmo em relação aquilo que ele experencia na vida (incoerência).

O ser humano então é essencialmente bom, cuja energia positiva pulsa dentro de si, em busca de conexão, aceitação e compreensão: de si mesmo e consequentemente dos outros. Contudo, esta natureza humana se choca com o externo, cuja qualidade das relações determinará o grau de neurose do sujeito: balizada no nível de consciência que ele possuirá de si mesmo e no quão ele é coerente ou não, entre aquilo que se é e aquilo que se experencia na vida.

Quanto maior o nível de aceitação, amor e liberdade (incondicionais), maior o nível de autorrealização do Ser. Simples assim.

No meu ponto de vista a ruptura é inevitável, pois se soubéssemos amar e aceitar incondicionalmente à nós mesmos e aos outros, nós não estaríamos aqui nesta plano de dualidade, aprendendo justamente pelos opostos para enfim chegar nessa fonte. Porém, Rogers traz luz e esperança sobre um homem natural que é espelho da natureza, perfeita em si mesma e capaz de se auto resolver, adaptar, evoluir… sempre a favor da vida (tendência positiva).

Isso parece óbvio, mas não é. Existe muito pessimismo em torno do ser humano nos dias de hoje, inclusive dentro das comunidades espirituais e centros de cura. Ressente-se muito a vida. Se hoje a raça humana é uma raça que parece odiar-se e promove destruição é devido ao seu nível gigantesco de ruptura com a fonte positiva (vida, Criação) e em sua proposta terapêutica, Carl Rogers propõe alguns insights importantes para nos tornarmos “Pessoas” (ser quem somos, logo, humanos 😊).

 

Tornar-se Pessoa (ser quem se é).

Tornar-se Pessoa envolve reconhecer-se como processo, aceitar-se e aceitar a sua própria experiência, que para Rogers, é a experiência a pedra de toque de toda validade. Isso porque, de acordo com Rogers, a experiência de cada um é única.

“Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas ideias, têm autoridade que reveste a minha experiência. Nem a Bíblia, nem os profetas, nem Freud, nem a investigação – nem as revelações de Deus ou dos homens – podem ganhar precedência relativamente à minha própria experiência direta.” Rogers 1977.

Se a experiência é única, é digna de total confiança. Ao aceitar a minha experiência, aceito a mim mesmo. É para a experiência que devemos regressar em busca da verdade e nos aliarmos a ela. Por experiência, ele define: “Aprendi que a minha apreciação total “organísmica” de uma situação é mais digna de confiança do que meu intelecto”, “Valorizar a minha experiência, o modo como sinto, o que sinto e por isso, devo seguir o que “sinto ser bom.” Rogers 1977.

Por essas declarações vemos nitidamente um homem guiado pelo coração: o sentir como bússola.
“Quando sinto que uma atividade é boa e que vale a pena prossegui-la, devo prossegui-la.”
“Sempre que confiava num sentimento interno e não intelectual acabava por encontrar a justeza da minha ação.”
“Nunca lamentei seguir as direções que eu sentia serem boas.”
Rogers 1977.

Sendo assim, aceitar a própria experiência torna-se tarefa difícil pois sabemos que requer muita coragem para guiarmos nossas vias pelo coração, pelo sentir. O reino humano é um reino de água e mesmo assim a humanidade nega sua própria natureza elementar ao negar e não dar fluidez aos seus sentimentos e emoções.

De acordo com Rogers então, podemos dizer que para tornar-se Pessoa, torna-se necessário abrir este canal para ouvir o que se sente e não somente ouvir, como aceitar o que se sente e nortear nossa experiência por aquilo que nos faz sentir bem.

A mudança (transformação) só ocorre quando nos aceitamos profundamente: quem somos e como nos sentimos. Penso que além de coragem, tal processo requer humildade. Humildade para seguir uma vida como se sente, conscientemente e genuinamente, sem deturpar a experiência com base em ideias e julgamentos preconcebidos por outrem. Apesar das consequências. 😊

 

Aceitar-me me permite aceitar o outro

De acordo com Rogers, quando aceitamos nossa própria experiência, integralmente, caminhamos automaticamente para a aceitação do outro. Isso porque as relações interpessoais se tornariam mais: reais (humanas). Numa outra linguagem, quando o Ser se conecta com o seu cardíaco e passa a alinhar sua experiência de vida à verdade que se sente, em seu coração, ele conecta automaticamente outros corações, possibilitando assim relações pelo que são (autênticas, coerentes, humanas), propiciando a transformação no outro também. Apesar de únicos, em algum lugar, somos um.

Creio que a empatia que Rogers descreve é resultante do processo de autoconhecimento (tornar-se Pessoa). Durante o processo de busca de quem se é e da re-união dos fragmentos resultantes das rupturas que o separaram de si mesmo, o indivíduo é tocado pela compaixão – inevitavelmente, pois antes de mais nada, é preciso acolher todas as partes que foram perdidas (esquecidas) pelo caminho. Honra-se o processo e consequentemente honra-se o processo do outro.

A minha Alquimia (transformação) propicia a Alquimia no outro, pois quando me aceito e me permito ser quem sou, sou coerente e consequentemente passo confiança e propicio sua transformação. Por isso o trabalho é sempre de dentro para fora e se inicia comigo. Ao me tornar Pessoa, em minha real humanidade, facilito que os outros se tornem Pessoas também.

Sempre digo que o trabalho é curar-se, incessantemente e buscar alinhar a vida a verdade que se passa em nossos corações (ou aceitar a experiência, como diria Rogers), pois assim, nos tornamos não só pessoas melhores, mas também propiciamos melhor a cura. Desta forma, quem busca ajuda se sente acolhido, aceito e confiante de seu processo de tornar-se também… Pessoa 😊

Seguimos dissecando o homem rogeriano no próximo Artigo, para acessar a parte II, clique aqui.

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